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Como a menstruação pode impactar o desempenho das atletas
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Como a menstruação pode impactar o desempenho das atletas

by adminagosto 26, 2016

São Paulo – Após mais de 20 anos de treinos e quatro Olimpíadas, Daniele Hypólito iria se despedir dos Jogos Olímpicos competindo em casa. Com a alegria de participar do evento no Rio, também veio o peso da responsabilidade. Assim, a ginasta tomou a decisão de interromper algo que a livraria de um incômodo comum para a maioria das mulheres: o ciclo menstrual.  

“Conversei com a ginecologista da equipe e ela preparou uma tabela para que eu não menstruasse nas Olimpíadas”, conta Hypólito em entrevista a EXAME.com. A veterana não acredita que a menstruação atrapalha seu rendimento, pois treina nessas condições e está preparada para qualquer adversidade. Mas, admite que o ciclo menstrual “é uma coisa chata, que a mulher sente que tem algo de diferente.”

Ainda não há um consenso entre os cientistas sobre os impactos da menstruação no rendimento das atletas, pois ela afeta cada mulher de maneira diferente. Enquanto alguns estudos comprovam o envolvimento do ciclo menstrual com o desempenho físico, outros não encontraram ligação alguma.

Em 2011, uma série de experimentos com remadoras na Europa revelou que a performance delas não variou durante o ciclo menstrual. As participantes foram divididas entre atletas e praticantes do esporte, e entre mulheres que usavam anticoncepcionais orais e outras que não utilizam a medicação.  

Durante um mês, as voluntárias foram ao laboratório para completar testes de aptidão em uma máquina de remo computadorizada. A partir dela foram medidos batimentos cardíacos, consumo de oxigênio, potência, níveis de lactato no sangue e outras medidas relacionadas ao condicionamento físico. O experimento mostrou que a mulher poderia remar na mesma velocidade e potência quando seus níveis de estrogênio estavam altos ou baixos, por exemplo.

Esses resultados são importantes, pois algumas atletas e técnicos acreditam que as mulheres não poderiam desempenhar determinados esportes quando menstruadas. Aliás, por isso, muitas delas decidem tomar pílulas anticoncepcionais para regular os níveis hormonais.

Apesar de ainda ser uma prática recorrente entre muitas atletas, nem todas interrompem a menstruação para competir. É o caso da nadadora chinesa Fu Yuanhui, que nadou menstruada a prova de revezamento 4×100 medley no Rio e acabou em quarto lugar.

Após o mau desempenho, Yuanhui concedeu uma entrevista ao canal chinês CCTV em que aparece visivelmente com dor. Foi nesse momento que ela revelou que estava menstruada. Assim como Hypólito, ela não acredita que o ciclo influenciou em sua performance. “Fiquei menstruada na noite passada e estou muito cansada agora. Mas isso não é desculpa, não nadei tão bem como deveria.”

David Gray / Reuters

Fu Yuanhui, nadadora chinesa, dia 08/08/2016

Segundo Rafael Fantin, endocrinologista especializado em medicina do esporte, se a mulher tem um ciclo regular, o que pode atrapalhar é o fluxo menstrual.

“Quanto maior o sangramento, maior a tendência de a mulher ter uma anemia, pois ela perde muito ferro e vitamina B12”, explica em entrevista para a EXAME.com. “Além disso, o excesso de sangramento diminui o fluxo de sangue para os músculos, o sangue bombeia menos no coração e vai menos oxigênio para o cérebro.”

O sangramento intensivo é chamado pelos médicos de menorragia. Ele geralmente dura mais de sete dias e requer que a mulher mude o absorvente a cada duas horas ou mais. O contrário também pode acontecer e a mulher pode parar de menstruar naturalmente – essa síndrome é conhecida como amenorreia. 

O segundo caso é mais comum entre as atletas, especialmente as maratonistas, pois algumas pesam muito pouco devido ao esforço físico intenso e à alimentação leve. “Devido à baixa disponibilidade enérgica, o tecido adiposo diminui a produção da leptina, fazendo com que o corpo pare de produzir alguns hormônios sexuais, como a progesterona e o estradiol”, diz Fantin.

Hypólito conta que, por causa do exercício físico pesado, as ginastas podem ficar com seus ciclos menstruais desregularizados quando começam a tomar anticoncepcionais. “No início, às vezes, pode demorar até um ano para vir [a menstruação]. É o corpo se adaptando ao contraceptivo.”

O outro lado

Mesmo que Yuanhui e Hypólito não associem seus desempenhos à menstruação, outras atletas já afirmaram que podem ter sido prejudicadas devido ao ciclo menstrual. A tenista Heather Watson disse a um repórter, após perder a primeira parte do Open da Asutrália em 2015, que estava se sentindo enjoada e sem energia. Ela atribuiu a sensação à “coisas de mulher”.

Um estudo da University College of London (UCL) feito com 789 mulheres revelou que mais de 50% delas acreditam que o ciclo menstrual impactava a performance. Segundo uma pesquisa conduzida pela organização britânica Women in Sport em 2010, em certas circunstâncias, a menstruação reduz a capacidade aeróbica e a resistência.

“É importante que o mundo dos esportes compreenda e seja sensível aos potenciais impactos do ciclo menstrual para atletas do sexo feminino. Isso não é uma questão que deve ser tabu para o esporte”, disse Ruth Holdaway, executiva da instituição, ao jornal The Guardian. 

É nisso que acredita a endocrinologista Tatiana Abrão. “Estudos já comprovaram que nos 14 dias pós-ciclo, quando o hormônio da progesterona aumenta, a musculatura lisa relaxa”, conta Abrão em entrevista para a EXAME.com. “Com isso, a mulher retém mais líquido, tem prisão de ventre e, por isso, se sente mais inchada.”

Segundo Abrão, a pior fase da menstruação para uma atleta competir é a lútea, período em que ocorre queda na produção da progesterona, hormônio que, em níveis baixos, pode causar depressão e reduzir o tônus muscular.

Todo esse desconforto pode ser tratado com medicamentos. Porém, para as atletas, alguns deles podem conter elementos banidos em testes antidoping. O anticoncepcional é a solução paliativa. Contudo, até mesmo o contraceptivo pode prejudicar o desempenho das atletas. “A pílula e outros métodos, principalmente se eles têm mais o hormônio estradiol, ajudam a reduzir a massa muscular da mulher a partir do acúmulo de gordura”, fala Fantin. 

Abrão explica que o uso contínuo do contraceptivo por um longo período de tempo e a idade da mulher podem prejudicar sua saúde no futuro. “Algumas podem ter dificuldade para voltar a menstruar e o maior risco de todos é o da trombose. A mulher também fica mais exposta ao câncer de mama e ao câncer de endométrio.”

Mesmo que acredite que a menstruação pode prejudicar o desempenho das atletas, a endocrinologista afirma que isso não é limitante para a prática do esporte. “Nós sempre driblamos isso e vamos continuar driblando. A menstruação não é empecilho para a mulher ser uma vitoriosa.”



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